Campanha quer recuperar estoque de ostras nativas em Maragogipe

Marisqueiras de Capanema entrando no mangue para mais um dia de trabalhoLançamento acontece no dia 16 de março e mobiliza marisqueiras da região

Recuperar o estoque de ostras em vida livre através do engajamento das marisqueiras numa campanha por melhores práticas de manejo, e da geração de renda com sustentabilidade e respeito ao meio ambiente. Este é o objetivo da campanha Marisqueira com orgulho, quilombola para sempre!, que será lançada oficialmente no dia 16 de março, às 9h, no distrito de Capanema, em Maragogipe.

A inauguração de um cultivo de ostras de base comunitária faz parte da programação do evento, que terá ainda café da manhã, degustação de ostras da brasa e lambretas, samba de roda, roda de capoeira e atividades de educação ambiental com a participação de Carlinhos de Tote (do grupo musical Cantarolama) com seu projeto “a arte de educar cantando”.


“Este ano, o mês dedicado às mulheres vai ser especial para nós marisqueiras. A campanha traz esperança de prosperidade e um futuro melhor”, comemora Janete Freitas, marisqueira e liderança da comunidade quilombola do Baixão do Guaí.

A campanha é uma realização da ONG Rare, Fundação Vovó do Mangue e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e tem o apoio da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e Bahia Pesca.

Mudança de comportamento – A iniciativa atua em duas frentes. A primeira é a realização de uma campanha de comunicação voltada para as marisqueiras de Capanema e Baixão do Guaí, comunidades ribeirinhas e quilombolas de Maragogipe, que fazem parte da Reserva Extrativista Marinha Baía do Iguape. As mulheres são as principais extrativistas de ostras e outros moluscos, e responsáveis pelo sustento das famílias. A partir da valorização da origem e saberes das comunidades tradicionais e fortalecimento da auto-estima destas mulheres, a campanha visa a adoção de novas condutas no dia-a-dia do trabalho delas, como a realização do rodízio de áreas de mariscagem e a não comercialização de ostras menores que cinco centímetros de diâmetro, fundamentais para garantir o ciclo de reprodução da espécie.

A logomarca da campanha, criada com a participação e aprovação das marisqueiras, mostra a mão da extrativista retirando da natureza ostras, peixes e outros alimentos para o seu sustento. Acompanhada pelo slogan Pescar, Conservar, Prosperar, ela reforça o compromisso com a conservação do meio ambiente como garantia de mesa farta no futuro. “Elas estão envolvidas na campanha desde o início do trabalho, que começou ano passado, e participaram ativamente de todas as decisões. Esta é uma campanha feita com elas e para elas”, disse o coordenador local da campanha, Daniel Andrade, destacando o engajamento e o protagonismo das marisqueiras.

A campanha utiliza metodologia desenvolvida pela Rare, executada com sucesso em diversos países nas últimas décadas, baseada no uso de ferramentas de marketing social para impulsionar mudanças de comportamento que beneficiam a natureza e a qualidade de vida das comunidades costeiras.

Empreendimento solidário – O outro foco de atuação da campanha é a implantação do cultivo de ostras de base comunitária. Inicialmente, a ostreicultura envolverá 30 famílias, 15 em cada comunidade, escolhidas por critérios elaborados pelas próprias marisqueiras. Além de gerar renda extra para as famílias, o cultivo de ostra diminuirá o esforço de mariscagem desta espécie em vida livre, fazendo com que o estoque volte a crescer no estuário.

O modelo utilizado é o mesmo desenvolvido com sucesso nas comunidades quilombolas do Kaonge e Dendê em Santiago do Iguape, distrito de Cachoeira. Com estruturas feitas de bambu, coletores de sementes produzidas com garrafas PET e gestão compartilhada, o empreendimento com base na economia solidária promove a autonomia das comunidades com sustentabilidade e sem prejuízo ao meio ambiente. As ostras crescem dentro de sacolas plásticas retangulares que imitam treliças chamadas de travesseiros. À medida que as ostras crescem, elas são transferidas para sacolas com treliças mais espaçadas. Os primeiros travesseiros para o início do cultivo foram doados pela Bahia Pesca.

Com a ostreicultura, as marisqueiras terão a sua produção valorizada. Para se ter uma ideia, as marisqueiras de Maragogipe vendem um quilo de ostras “desconchadas” por R$ 18, enquanto o cultivo do Kaonge e Dendê vende a dúzia pelo mesmo valor. Outro objetivo da campanha é que as marisqueiras adotem a venda por dúzia.

Para garantir a qualidade das ostras que serão produzidas em Maragojipe, uma equipe de pesquisadores do curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) é responsável pelo monitoramento do meio ambiente e da espécie-alvo. “A qualidade da água é essencial em áreas onde ocorre o extrativismo e o cultivo de moluscos bivalves, pois estes organismos são filtradores e acabam aprisionando poluentes e outras impurezas existentes na água. Então esses organismos também funcionam como bioindicadores do ambiente e da qualidade da água”, explica o professor Moacyr Serafim Júnior.

Outra preocupação é capacitar as marisqueiras para que no futuro elas possam gerir o empreendimento, seguindo os princípios da economia solidária. Por isso, foi realizada parceria também com a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), que ministrará seis oficinas até junho. A primeira aconteceu de 22 a 26 de fevereiro e teve como foco a Gestão. Mais duas oficinas estão programadas para acontecer em março e abril, abordando a Comercialização e o Trabalho em Redes.

Programa Pesca para Sempre – A campanha Marisqueira com orgulho, quilombola para sempre! faz parte do Programa Pesca para Sempre, que existe em outros países como Filipinas, Moçambique e Indonésia, com o intuito de promover a gestão sustentável da pesca artesanal, proteger os recursos naturais costeiro-marinhos e melhorar a vida de milhares de famílias ribeirinhas.

Estudos revelam que o consumo de peixes e frutos do mar per capita no país aumentou cerca de 50% entre 2005 e 2010 e que 70% do pescado nacional provêem de atividades realizadas em níveis insustentáveis. É neste contexto que o programa chegou ao Brasil através de uma parceria da Rare com o ICMBio e a CONFREM (Comissão Nacional para o Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos Extrativistas Costeiros Marinhos). “Não seria possível realizar nosso trabalho no país sozinhos. Parcerias são essenciais para avançar qualquer programa e com a Rare isso não é diferente. É a soma de esforços conjuntos que vai garantir os resultados esperados”, afirma Márcia Cota, diretora de estratégia e desenvolvimento da Rare.

O programa atua em seis reservas extrativistas do país – Delta do Parnaíba (MA/PI), Cururupu (MA), Prainha do Canto Verde (CE), Baía do Iguape (BA), Canavieiras (BA) e Pirajubaé (SC) -, onde foram selecionados parceiros locais responsáveis pela coordenação das chamadas ‘campanhas por orgulho’, nome da metodologia desenvolvida e utilizada pela Rare. “Ser uma das organizações brasileiras selecionadas para participar deste programa é motivo de orgulho, é o reconhecimento da nossa inserção na comunidade maragojipana e da nossa capacidade de atuação junto aos pescadores e marisqueiras”, disse Antonio Marcos dos Santos, diretor geral da Fundação Vovó do Mangue, ONG que atua há 18 anos no reflorestamento de manguezais na Baía do Iguape.

O Pesca para Sempre é uma aliança entre três organizações internacionais – Rare, Fundo de Defesa Ambiental (EDF, na sigla em inglês) e Universidade da Califórnia/Santa Bárbara – que apoia comunidades para uma gestão pesqueira efetiva. No Brasil e nas Filipinas, a Rare integra a iniciativa Oceanos Vibrantes da fundação americana Bloomberg Philanthropies, que é o primeiro programa com foco simultâneo na gestão da pesca artesanal e industrial, sendo a Rare responsável pela agenda da pesca costeira de pequena escala.

Rare – É uma organização ambientalista norte-americana, com 40 anos de experiência, cuja missão é inspirar mudanças para que as pessoas e a natureza possam prosperar. Por meio das ‘Campanhas por Orgulho’, já implementou projetos de mobilização  social  para  a  promoção  de  práticas  sustentáveis  em  mais  de  50  países, concentrando-se em duas linhas temáticas: ‘pesca’ e ‘água e florestas’. A Rare estabeleceu-se no Brasil em 2014 e desde então vem trabalhando em parceria com o governo federal, outras ONGs, universidades e atores locais pela melhoria da gestão da pesca artesanal no país. Com sede no Rio de Janeiro e atuando em unidades de conservação marinhas de uso sustentável, a organização busca capacitar comunidades costeiras para o melhor manejo dos recursos pesqueiros. Assim, a Rare objetiva garantir a segurança alimentar e o sustento da população tradicional, conservar importantes habitats marinhos e os estoques das principais espécies comerciais, além de criar resiliência às mudanças climáticas. O trabalho da Rare no Brasil tem o apoio de alguns doadores individuais e é financiado, em sua maior parte, pela fundação americana Bloomberg Philanthropies, que engloba todas as atividades filantrópicas do ex-prefeito de Nova York, Michael R. Bloomberg, e tem o meio ambiente como uma de suas cinco áreas-chave temáticas de atuação. Conheça mais sobre a Rare em http://www.rare.org/pt-br.

Fundação Vovó do Mangue – Com 18 anos de experiência na realização de projetos na área socioambiental no Recôncavo Baiano, a Fundação Vovô do Mangue possui hoje três projetos em andamento. O projeto CO2 Manguezal que já recuperou 8,2 hectares de áreas degradadas de manguezal em Maragogipe e São Francisco do Conde e produziu mais de 65.000 mudas de três espécies de mangue; o projeto Garotada que oportuniza a prática de quatro modalidades esportivas (futsal, basquete, capoeira e hap-ki-do) para 308 crianças e jovens maragojipanos em situação de vulnerabilidade social; e o programa Pesca para Sempre. O CO2 Manguezal e o Garotada são projetos patrocinados pela Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental. Desde a sua criação, a Fundação já realizou projetos através de parcerias com instituições como a DETEN Química, Fundação Abrinq, ministérios do Meio Ambiente, Comunicações e Esporte, UFBA, dentre outras. Conheça mais sobre a Fundação Vovó do Mangue em www.vovodomangue.org.

Contatos
Gabriela da Fonseca (assessoria de comunicação):
71 99644-1517 – gabrieladafonseca@gmail.com
Daniel Andrade (coordenador local da campanha):
71 99917-3771 – daniel_souza_andrade@yahoo.com

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