Eletrônicos em sala de aula geram polêmica em relação à escrita

De atrativos auxiliares do estudo, os computadores tomam agora ares de material escolar, em substituição ao lápis, às canetas e aos cadernos. Recentemente, o estado de Indiana, nos Estados Unidos, acabou com a exigência de que as escolas ensinem escrita cursiva aos alunos. Com isso, totalizam-se 47 estados americanos que recomendam o uso da digitação em sala de aula. Contudo, o computador não substituirá integralmente a escrita manual, que poderá ser em letra de forma ou um misto das duas. Ainda assim, o crescente abandono da escrita à mão, substituída pela letra impressa na tela, dá sinais de que está cada vez mais perto o fim de cadernos, lápis e borrachas. No Brasil, a adoção ampla de notebooks como material escolar ainda está distante, mas o assunto já gera discussões entre pais, professores e alunos.


O estudante Leonardo Dias, 17 anos, não gosta de ter que escrever à mão. Para ele, o computador, além de mais rápido, tem maior praticidade e comodidade. “Sempre podemos mandar uma cópia do que escrevemos por e-mail, o que não acontece com o papel.” Leonardo considera ainda sua caligrafia “feia”, devido “à pressa”. Ele estuda para o vestibular e tem que escrever bastante à mão. Apesar da preferência pela digitação, o estudante reconhece a importância de pegar no lápis e na caneta. “Redações e textos precisam ser escritos à mão e uma escola que tem um computador individual não permite que o aluno se concentre ou trabalhe sua escrita.”

A concentração em sala de aula também divide opiniões no tocante ao uso dos computadores pelos alunos. A coordenadora pedagógica do colégio Sigma, Silvana Queiroz, chama atenção para a necessidade de o ensino acompanhar o desenvolvimento tecnológico do mundo moderno. Para a pedagoga, ainda é cedo para dizer se os computadores em sala de aula serão prejudiciais aos alunos. “É um recurso didático que atrai muito as crianças e todo educador deve estar aberto às novidades.” Segundo Silvana, a tecnologia não dispersa o aluno; ao contrário, ajuda aqueles com deficit de atenção a compreender melhor os conteúdos estudados.

Para a calígrafa Fátima Montenegro, o que ocorre, porém, é o inverso. Escrever à mão, segundo ela, é extremamente importante para o desenvolvimento da criança e revela muito da personalidade. “A letra é pessoal, trabalha a coordenação motora fina, a concentração e a percepção. Tirar isso do estudante em fase de alfabetização, por exemplo, seria fazê-lo sair do pré-escolar direto para o primeiro grau. Pular etapas.”

Para Fátima, o contato do aluno com lápis e papel e o desenvolvimento da escrita cursiva são essenciais. A tecnologia é eficiente como auxiliar, mas não como principal meio para a aprendizagem, avalia. “A cursiva é uma letra que segue seu curso. É diferente da letra impressa, é uma identidade. Não podemos igualar a caligrafia de todo mundo com a letra de forma ou ficarmos dependentes de um computador. No dia que der um “tilt” em tudo, como ficaremos se não soubermos mais escrever?”

Sem excesso
Opinião similar à da calígrafa tem a bancária Merity Bergamaschi. Mãe de três filhos, dois deles no ensino fundamental, ela defende o equilíbrio entre o ensino “supercomputadorizado” e o tradicional. Mesmo assim, para Merity, papel, lápis e borracha sempre continuarão sendo essenciais. “Tirar o caderno da criança é cortar o seu desenvolvimento. Hoje, tudo vem muito pronto, é só pegar na internet e imprimir. Às vezes, não é preciso nem pensar.” Apesar das facilidades tecnológicas, o filho caçula, de 6 anos, adora escrever à mão. O irmão dele, de 10, é adepto do teclado do computador. Para equilibrar, a bancária acredita que o bom senso é a melhor saída. “Não podemos ignorar que um auxílio tecnológico é, com frequência, bem-vindo, afinal, é o mundo em que vivemos.”

O publicitário Fred Gallo é um dos que encontram o meio-termo entre os traços manuscritos e as teclas do computador. Quando escreve à mão, acha a própria letra feia e difícil de entender, enquanto que, ao digitar, as ideias ficam mais organizadas, na opinião dele. Além disso, têm estética própria. “Gosto da noção que você tem da palavra escrita já com uma tipologia específica. Você tem total noção de tamanho, tom e personalidade do que escreveu, coisas importantes dentro da publicidade.” A liberdade de ter um lápis ou uma caneta sempre à mão, contudo, faz parte do processo criativo no trabalho. “Fico com um bloco de papel e um lápis perto, pois estou o tempo todo digitando algo e desenhando simultaneamente.”

Para o estudante Renato Pereira, 23 anos, a prática da escrita cursiva é extremamente importante para a concentração e as tarefas do dia a dia, mesmo que o computador seja mais rápido e prático. Ele atribui sua vitória em dois vestibulares ao curso de caligrafia que melhorou sua escrita. Antes, ele até se considerava apto para entrar na faculdade, mas a caligrafia atrapalhava na hora da prova. “Eu era bom, tinha conteúdo, mas a letra atrapalhava, não conseguia colocar as ideias no papel daquele jeito.”

Teorias mais radicais sugerem o fim de cadernos e anotações à mão em classe, mas a verdade é que a preferência varia muito entre os alunos. Portanto, é difícil prever se os computadores vão substituir o papel nas escolas. Para a pedagoga Silvana Queiroz, seja na tela e no teclado ou nas linhas de papel pautado, o importante é que a grafia esteja correta, sem erros de português. “Não importa tanto onde ele vai escrever, desde que escreva bem.”

Fonte: Correio Braziliense

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