Organizações do Nordeste discutem sustentabilidade da causa da equidade racial em Salvador

Por Paulo Rogério*

Paulo Rogério

Conhecer a realidade das organizações negras e das instituições que trabalham pela equidade racial do Nordeste assim como discutir a criação de um mecanismo para sustentabilidade da luta contra o racismo, foram alguns dos objetivos de um encontro realizado no dia 10 de abril na Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador. Participaram do evento cerca de 191 organizações do movimento negro, instituições públicas e fundações de apoio. O evento foi promovido pelo Programa CEAFRO do Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA e pela Fundação Kellogg.

Na oportunidade, foram apresentados os dados do Mapeamento de Políticas de Equidade Racial da Região Nordeste, realizado pelo CEAFRO desde julho de 2009, quando foram visitados os nove estados nordestinos e identificadas 19 organizações, além das principais políticas públicas e lideranças. Segundo Maria Nazaré Lima, coordenadora da iniciativa, foi um mapeamento exploratório, cujo caráter era mobilizar e conversar com as instituições encontradas sobre as principais dificuldades e avanços. O público presente, formado por representantes de órgãos como a Secretaria de Promoção da Igualdade da Bahia (SEPROMI) e a Secretaria Municipal da Reparação (SEMUR), entidades do Movimento Negro, organismos internacionais, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), fez comentários sobre a pesquisa e sugeriu encaminhamentos para uma maior integração regional entre as organizações negras nordestinas.


Estavam presentes também membros do Comitê Programático da iniciativa de Equidade Racial e Inclusão Social financiada pela Fundação Kellogg, entre eles a fundadora do Geledés, Sueli Carneiro, o professor Luiz Alberto Gonçalves, da Universidade Federal de Minas Gerais, o ativista Magno Cruz, Maria Carolina Trevisan da Fundação Kellogg, do Centro de Cultura Negra do Maranhão e Rebeca Oliveira, do Observatório Negro, de Pernambuco. Em sua apresentação, o professor Luiz Alberto mostrou o Marco Referencial do que será uma instituição de apoio para organizações sociais que trabalhem com equidade racial, que receberá financiamento da Fundação Kellogg e de outras fontes, nacionais e estrangeiras .A idéia é envolver outros agentes de fomento do setor social para fortalecer o financiamento, a mobilização e a articulação em torno da luta anti-racismo, que hoje não é prioridade das principais fundações e institutos empresariais.


Investimento no campo da equidade racial

Para Andrés Thompson, Diretor de Programas da Fundação Kellogg para a América Latina e Caribe, em um país como o Brasil, em que mais da metade da população é negra, é preciso colocar a dimensão racial no centro das ações de investidores sociais, como a Kellogg. “Não se trata apenas de aportar recursos, mas queremos também ajudar a repensar e repactuar a maneira como se dá essa luta. Estamos aqui para apoiar esse processo”, afirmou Thompson.

A professora da Universidade Estadual da Bahia e uma das principais referências nacionais na luta contra o racismo na educação, Ana Célia da Silva, avaliou positivamente o evento. “Acredito que essa iniciativa vai possibilitar um reagrupamento dos movimentos em torno de um objetivo comum, retomando a unidade na diversidade”. Para Vilma Reis, presidente do Conselho das Comunidades Negras da Bahia (CDCN), essa experiência é única para o Brasil. “É a possibilidade de nós termos neste momento, e em mais cem anos, recursos para fazer advocacy noenfrentamento ideológico do racismo na região Nordeste”. A socióloga acredita também que os efeitos dessa mudança não são apenas locais. “Se nós mudarmos a situação no Nordeste mudaremos a situação no Brasil.E se mudarmos no Brasil, mudaremos em toda a América Latina, pois temos um papel de liderança na região.”

O Nordeste é a região do Brasil que apresenta os piores índices de desigualdade racial do país, apesar disso, possui um movimento negro ativo e que busca superar os desafios. O Mapeamento, coordenado pelo CEAFRO, mobilizou 492 participantes e 320 instituições nas reuniões que se iniciaram em 2009 e foram concluídas em abril deste ano, com o processo de devolutiva e discussão dos próximos passos, entre eles a conformação de um Conselho Curador da futura instituição, que desenvolverá um plano estratégico e um plano integrado de mobilização de recursos.

*Publicitário e diretor do Instituto de Mídia Étnica

1 Comment

  • Alison MOses Responder

    Gostei desta iniciativa.

    Na minha qualidade de economista social, norteamericana de pais do Caribe, me interessa saber o elenco de organizações da Bahia, de São Paulo e do Rio que participaram do evento.

    Atualmente sou consultora do Banco Mundial e solicito sua colaboração com relação às organizações negras. O título do meu trabalho é “Brazil’s Diasporas” (“As Diasporas do Brasil). SE tiver disponibilidade, gostaria de entrevistá-lo.

    Sua colaboração será de gande valia para nosso trabalho no Banco Mundial.

    Antecipadamente grata,
    Firmo-me,
    Alison Moses
    Skype = soualison

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