Lições Africanas de hoje

Por Fernando Conceição*

Fernando ConceiçãoTalibés são crianças, meninos de 3 a 13 anos obrigados a esmolar para benefício exclusivo do marabu a que deve obediência. Marabus são “líderes espirituais”, espécie de babalorixá ou “pai de santo”, como se diz no Brasil. Têm forte poder e influência no Senegal, Gâmbia, Mali, Guiné-Bissau e por toda a África muçulmanizada. Vivem cercados de mistério, em feudos interioranos. Pregam o Corão.

Políticos sagazes, como o presidente senegalês Abdoulaye Wade, fazem barulhentas procissões reverenciais a esses “sacerdotes”. Se ao final do dia um talibé volta à morada sem nada nas mãos, o marabu pode puní-lo a seu modo. Em maio, uma criança foi espancada com tal brutalidade que entrou em coma. Com hematomas, foi socorrida. ONGs internacionais protestaram, as autoridades senegalesas simularam ação. O marabu desapareceu por uns tempos.


Esmolam por capitais e vilarejos, mulambentos, descalços, sol a sol. Nas idas e vindas que fiz a regiões profundas, entre Dakar e Bissau e Bamako, se é assediado por esses maltrapilhos. Como há muitas crianças vagando abandonadas, o viajante não sabe qual realmente é talibé. A África, mítica, cantada em verso, prosa e batuque alhures, inclusive por encantadores de serpentes na Bahia, é uma ilusão. Não é o espaço geográfico ou mental ao qual teríamos de nos referenciar sempre com orgulho.

34 dias embrenhado numa de suas regiões podem calar alto no espírito de um afrobrasileiro. Sentimentos contraditórios, misto de alegria e tristeza, dor e emoção. O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, permanece leitura atual para se entender parte das contradições africanas. Ao percorrer as capitais do Senegal, da Guiné, do Mali, e também viajando por suas entranhas, por Gâmbia, em inseguros meios de transporte da gente local, sobressai ao estrangeiro a distância entre o mito, o romantismo e a realidade.

Nada disso se poderá ver no ôba-ôba de festivais como o Fesman, marcada para realizar-se em novembro deste ano em Dakar. Festival este que passa ao largo dos temas frequentes das conversas com a gente comum senegalesa. É uma festa que, em termos locais, é vista como estratégia de fortalecimento político do grupo do presidente, que depois de 10 anos no poder, que colocar no posto o seu filho, Karim Wade. Este, atualmente, é o dono do cofre do Estado. Há frequentes denúncias de desvios, enriquecimento ilícito, corrupção. Em Dakar os ricos são muito ricos, e vivem apartados da maioria de miseráveis.

A grande batalha é não pela comida, mas pela “alma”. O islamismo ali há séculos faz história. Como a escravidão, até hoje aberta em países como Mauritânia e Sudão. Exército de missionários e pastores de denominações cristãs várias insistem na conversão dos africanos. Que, por sua vez, dificilmente abandonam suas crendices denominadas animistas. Na conjuntura mística do cotidiano, o cristianismo e o Islã, estranhos ao ambiente, têm de se adaptar a rituais nativos de ancestralidade.

Esses rituais mantêm a estratificação étnica, definem as hierarquias. Todo sujeito com quem conversei se identificava não como senegalês, ou guineense, ou maliano. Mas antes, da etnia tal ou qual. No Mali as tradições árabes reforçam o pertencimento étnico discricionário. Na desgracada Bissau, assassinatos políticos seguem esta lógica. Pele mais clara é signo de superioridade ou desconfiança. Senti convivendo em Bamako com um tuareg cristianizado, chefe de uma “missão” para a juventude. Sob suas asas vive um séquito, algumas crianças e adultos como serviçais.

Animismo e demais religiões não debelam a miserabilidade, padrão da maior parte do povo, que sobrevive mal. Rezas, cultos, rituais fetichistas. Se isso tem alguma relação direta com o Brasil místico, essa ancestralidade pode ser vista como razão de atraso. Aqui e lá. Crianças e mulheres são inferiorizadas, traficadas, serviçais de tudo e muitos abusos. A noção de cidadania inexiste. A idéia de direitos vale apenas para quem usa uniforme de polícia, avental ou arma de autoridade.

Chineses, capitalistas árabes, europeus e o narcotráfico fazem negócios com a elite local, que agradece exibindo carrões de luxo e jóias. Pessoas comuns que transitam no salve-se quem puder das perigosas estradas, são naturalmente humilhadas. Se parte, não sabe se chega ao destino nem quando. Dá medo. Motoristas e passageiros vão sendo ameaçados e extorquidos, de forma sádica, nas inúmeras barreiras de controle. Um trajeto previsto para durar 24 horas, dura 48. No calor, bebês, mães que amamentam, velhos e doentes viajam em transportes sem água, sem sanitário. Detidos nos checkpoints dormem ao chão, na imundície, ao relento das vias que cortam o deserto. Ninguém protesta ou se queixa. Ai de quem! Para quê? Para quem? Reza-se.

Na África que vi, de corrupção, autoritarismo de autoridades e religiosidade doentia, crianças e mulheres valem como cães. A beleza é só um detalhe na paisagem.
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*Jornalista, professor da Universidade Federal da Bahia, é pesquisador-visitante da Freie Universität Berlin (Alemanha). Viajou aos países africanos entre junho e julho de 2009, em busca de dados para a pesquisa sobre a importância do geógrafo Milton Santos, de quem produz a biografia autorizada.

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