A Sombra da Árvore do Crime

Por Ricardo Andrade*

Ricardo AndradeUma árvore nasceu bem no meio no meio de uma comunidade. No início ninguém se importou muito, pois a árvore não incomodava. Com o passar do tempo, a árvore cresceu e seus galhos começaram a fazer uma sombra enorme sobre as casas. As pessoas queriam tomar um banho de sol ou secar suas roupas no varal e não conseguiam por causa da sombra. 

A comunidade começou a reclamar. No ônibus, no mercado, no salão, nos bares e clubes só se falava da maldita sombra que perturbava a todos. Alguns grupos organizados passaram a cobrar das autoridades uma providencia, até que a situação se tornou insustentável. Passou até na televisão.


Finalmente, houve uma reunião e as autoridades decidiram enviar uma equipe para acabar com o problema.  Essa equipe munida de tesouras enormes, começou a cortar os gravetos que estavam mais salientes, aqueles galhos mais finos que ficavam na parte mais externa da árvore. Não demorou muito e o “problema estava resolvido” O sol agora brilhava sobre os telhados das casas e o povo estava feliz, ninguém mais pensava na árvore.  Até que em outra primavera novos gravetos cresceram e a sombra voltou a aterrorizar a sociedade.

É exatamente dessa forma que nossa sociedade combate o crime, a violência e a insegurança. A árvore do crime está bem no meio da sociedade, suas raízes são profundas e seus tentáculos estão instalados nos poderes executivo, legislativo e no judiciário. Está na polícia, nas organizações sociais e nas entidades religiosas. O tronco dessa árvore é rico em corrupção, sonegação, estelionato, tortura e hipocrisia.

Quando a situação se torna crítica e a comunidade exige uma postura das autoridades, a polícia é enviada com seus fuzis para furar o crânio daqueles negrinhos que ficam vendendo sua balinha de maconha nas esquinas das ruas (os gravetos). Os galhos mais grossos protegem o caule. A hipocrisia somada a corrupção, impedem que a raiz da planta seja atingida. O pior disso tudo é que nós, comunidade ficamos felizes quando os exterminadores se apresentam com seu arsenal da morte. Somos incapazes de perceber que eles fazem parte do tronco e jamais irão combater a raiz do problema.

No final, muitas famílias chorarão seus óbitos, outras festejarão a falsa sensação de paz enquanto novos pivetes são alimentados e fortalecidos com o próprio fruto da maldita árvore.  
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*Ministro de Comunicação da Posse de Conscientização e Expressão – PCE, militante do Movimento Negro Unificado – MNU, integrante Associação de Familiares e Amigos de Presos e Presas do Estado da Bahia
Campanha Reaja ou Será Mort@

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